TAG: Livros em fatias

A lindona Thamiris, do Historiar, me convidou mais uma vez a responder a TAG Livros em fatias (obrigada Thami por sempre me tagear ūüėė) , que √© composta por oito quest√Ķes que nos levam a pensar nas leituras como peda√ßos de bolo. Pode parecer estranho isso, mas v√£o por mim, a ideia √© interessante, vamos l√°: 


Primeiro pedaço: O mais gostoso de todos eles, aquele que você come primeiro com os olhos - Um livro que você comprou pela capa.

Com certeza, Anna Kariênina, além de ter achado o livro muito bom, eu não pude deixar essa edição da Cosac Naify se perder.

Capa dura, São Petersburgo e Moscou na capa, fitinha de cetim para marcar onde parou, ilustração em cada início de capítulo... Um arraso!

Segundo pedaço: Você só está começando e o segundo pedaço sempre deixa um gostinho de quero mais - Um livro que você leu e não vê a hora de lançarem a continuação.

N√£o leio livros que s√£o trilogias, sagas, etc., ent√£o, pulo essa pergunta.

Terceiro pedaço: Aquele que te faz querer outros sabores - Um livro que de tão bom, te faz querer ler todos os outros do mesmo autor.

Orgulho&Preconceito, da Jane Austen. √Č considerado o melhor livro da Janezinha. Al√©m dele eu li Persuas√£o, Mansfield Park e Emma, e tenho A abadia de Northanger me esperando na estante.

Quarto pedaço: Quando você pensa que não vai mais conseguir comer, ele apenas abre mais apetite - Um livro que você não gostou no começo mas depois a leitura ficou irresistível.

O apanhador no campo de centeio, do J.D. Salinger. Achei estranho no início e a minha expectativa era totalmente diferente do que eu encontrei no livro, mas, depois, amei a história.

Quinto pedaço: Não tem o mesmo sabor que os outros pedaços, mas ainda assim você come - Um livro sequência, mas que não foi tão bom quanto os outros.

O restaurante no fim do universo, do Douglas Adams. Até gostei, ri e me diverti do mesmo modo que com a leitura do primeiro, mas é claramente mais fraco.

Mesmo assim, quero continuar lendo a série.


Sexto pedaço: Você já não está mais sentindo o gosto dele - Um livro com a leitura arrastada, por mais que você se esforce para digerir.

Morte s√ļbita, da J. K. Rowling. Esse foi uma leitura que, pelo g√™nero, n√£o deveria ser t√£o densa, afinal, seguia um estilo drama adolescente. Por√©m, tinha tantos personagens e nenhum foco em algum deles, que eu fui lendo s√≥ por in√©rcia, mesmo. Por√©m, o final fez valer a pena.

Sétimo pedaço: Aquele que te deixa empanturrado - Um livro que você leu mas a leitura não flui, como se ficasse entalado na garganta.

O pêndulo de Foucault, do Umberto Eco. Foi uma tortura, ouso dizer, conseguir terminar as mais de 600 páginas desse livro. Eu fiz a resenha, mas só porque era de parceira, se dependesse de mim, eu esquecia que li esse livro.


Oitavo pedaço: Você não aguenta nem olhar para ele - Um livro que você detestou e por esse motivo ele encontra-se abandonado na sua estante, aguardando uma nova chance.

Eu não costumo dar segundas chances para livros que eu não gosto, se eu abandonei, é vida que segue e livro que é passado adiante. Por isso, me abstenho de responder essa pergunta, não me xinguem.

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Para responder a TAG também, eu vou indicar os blogs: Eu curto Literatura, Check-in virtual e Loucura por leituras.

Vamos conversar nos coment√°rios!?
Beijinhos, Hel.

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Fahrenheit 451 √© uma leitura de deixar qualquer leitor de cabelo em p√©, j√° que, no universo da est√≥ria, ler ou mesmo ter livros em casa, √© considerado um crime sujeito √† pris√£o. Os que s√£o pegos com livros em casa s√£o denunciados e os bombeiros incineram tudo. Isso mesmo, ao inv√©s de apagar fogo, os bombeiros ateiam fogo, j√° que as casas s√£o √† prova de inc√™ndio nessa √©poca. Sem livros, as pessoas vivem t√£o ocupadas em distra√ß√Ķes como programas de televis√£o e t√£o dopadas de rem√©dios, que elas sequer conseguem manter uma conversa interessante.

Como eu li no kindle, fiquei pensando, inevitavelmente, que Bradbury n√£o previu os e-books, haha.

O protagonista √© Montag, um bombeiro que, ap√≥s uma conversa com sua vizinha, Clarisse, come√ßa a questionar o status quo. E a√≠ come√ßa a ver a situa√ß√£o por um novo √Ęngulo. Por√©m, com o desaparecimento misterioso de Clarisse, ele come√ßa a se rebelar e esconder livros dentro de sua casa, colocando em alto risco sua situa√ß√£o e correndo o risco de ser denunciado por seus conhecidos aos seus colegas de trabalho.

"Não estava feliz. Não estava feliz. Disse as palavras a si mesmo. Admitiu que este era o verdadeiro estado das coisas. Usava sua felicidade como uma máscara e a garota fugira com ela pelo gramado e não havia como ir bater à sua porta para pedi-la de volta."

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O enredo de Fahrenheit 451 encaixa-se no g√™nero liter√°rio distopia, um dos meus favoritos. Sabemos que as distopias simulam uma realidade futur√≠stica, normalmente uma realidade em que os sistemas pol√≠ticos s√£o opressores e as condi√ß√Ķes de vida s√£o intoler√°veis, o contr√°rio, logo, de utopia. Por√©m, se tem algo que as distopias me fazem refletir √© que elas n√£o est√£o t√£o distantes assim da nossa realidade. √Č claro que n√£o queimamos nossos livros, hoje em dia, mas o que eu quero dizer √© que h√° uma queima simb√≥lica de livros, sim. Afinal, como queimamos nossos livros atualmente?

Antes de entrar no mérito da questão acima, preciso dizer que essa edição da Biblioteca Azul está excelente, com textos de apoio, um de autoria do próprio Bradbury, em que ele vai versar sobre alguns assuntos que me deixaram muito reflexiva. Claro que o romance, em si, já me fez pensar muito, mas foi com a leitura do texto do autor que eu cheguei em um assunto que muito me preocupa, a adaptação/simplificação de livros.

"[...] para isso que vivemos, não acha? para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que a nossa cultura fornece as duas coisas em profusão."

Li, no ano passado, um artigo que criticava e analisava um projeto que estava causando muita pol√™mica no Brasil, encabe√ßado por Patricia Engel Secco, que tinha o intuito de simplificar, facilitar, as obras do Machado de Assis por meio da reescrita e troca de termos "dif√≠ceis" por uma linguagem mais "acess√≠vel" aos jovens leitores. Reparem que dif√≠ceis e acess√≠vel est√£o entre aspas porque a quest√£o √© t√£o esdr√ļxula que n√£o poderia deixar de questionar a validade de tal proposta e questionar o que seria, ent√£o, considerado dif√≠cil e acess√≠vel.

"Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos."


A principal cr√≠tica √© a de que, enquanto literatura, textos como os de Machado de Assis encerram em si quest√Ķes que v√£o al√©m dos aspectos lingu√≠sticos, como o contexto hist√≥rico e todo o aspecto est√©tico e estil√≠stico do autor em quest√£o. Com a simplifica√ß√£o do vocabul√°rio, n√£o s√≥ o texto ir√° perder sua historicidade, como tamb√©m a sua identidade e passar√°, ent√£o, a ser um novo texto, n√£o mais aquele original. Entendem como tudo isso √© prejudicial?
Ser√° que vale a pena fazer com que o texto liter√°rio chegue at√© o leitor dessa forma? N√£o seria essa proposta uma forma de mascarar o problema da leitura no Brasil, numa tentativa de “tapar o sol com uma peneira”? N√£o seria mais f√°cil, ent√£o, investir em pr√°ticas mais eficazes de leitura ou na escolha de textos mais contempor√Ęneos, j√° que os textos can√īnicos s√£o “dif√≠ceis”? Obviamente, a proposta de simplificar os textos ditos “enfadonhos e dif√≠ceis” para os leitores compreenderem n√£o √© a maneira mais acertada de consertar o problema da leitura. 

Deixando os devaneios um pouco de lado e voltando ao livro em quest√£o, voc√™s percebem que n√£o √© preciso queimar um livro para que a literatura seja prejudicada?  

E mais uma impress√£o que a leitura de Fahrenheit 451 me causou foi a de que a leitura, nem sempre, nos faz sermos mais cr√≠ticos. Alguns dos personagens, por exemplo o chefe do Montag, liam, mas isso n√£o os tornavam melhores, muito menos os levavam a se questionar sobre o estado das coisas. E, tamb√©m, havia o fato de que somente os livros ditos "liter√°rios" eram banidos, sendo que outros tipos de livros que n√£o concentravam nenhuma literariedade em si eram permitidos. O que me leva √† quest√£o da grande parte dos livros que s√£o comercializados atualmente: seriam eles liter√°rios? Ou seriam apenas subterf√ļgios, distra√ß√Ķes, assim como as telas em que a mulher de Montag passa seu tempo assistindo?

Lan√ßo essas quest√Ķes e as deixo em aberto, pois eu me prolongaria demais se escrevesse tudo que me vem √† mente sobre esse assunto, mas, claro que podemos conversar nos coment√°rios, sempre.

Também deixo a indicação de leitura desse livro, que é maravilhoso e que deveria ser lido por todos, em especial, essa edição.

Beijinhos, Hel.

BRADBURRY, Ray. Fahrenheit 451. Tradu√ß√£o de Cid Knipel. S√£o Paulo: Globo, 2012.